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Uma voz nordestina na Lapa

novembro 22, 2007

Raimundo Nonato é morador de uma pensão que fica ao longo dos 215 degraus da escadaria da Lapa decorada pelo famoso artista plástico Selarón. Vindo do Ceará, ele adotou o Rio como sua cidade e, após horas de bate-papo, revelou um pouco da sua história em uma conversa descontraída. “O Rio é muito bom e aqui na escadaria é muito calmo”, diz ele nessa entrevista.

tiozinho.jpgQuando e como foi a decisão de sair do sertão do Nordeste e vir morar no Rio de Janeiro?
Eu nasci no Ceará no Sertão. Onde eu morava não tinha nada apenas a casa do meu pai e um pouco distante a da família da minha mãe. Minha mãe morreu quando eu tinha quatro anos. Meu pai casou com a minha tia quando eu tinha uns doze anos. Ela cuidou de mim e dos meus seis irmãos. Foi nessa época que eu conheci a minha ex-esposa. Casei com 22 anos e foi a primeira vez que eu vim para o Rio de Janeiro. Me mudei sozinho pra cá e fiquei um ano e meio. Voltei para o Ceará e fiquei até o nascimento do meu primeiro filho. Voltei para o Rio em seguida sozinho e só depois do nascimento da minha filha que eu consegui trazer todos eles para morarem na Rocinha em um barraquinho de um cômodo, mas era tudo direitinho que eu consegui comprar.

Por que você resolveu sair do Ceará e tentar a vida no Rio?
Lá no Sertão a vida é muito difícil. Nós éramos sete filhos e passamos muita dificuldade lá. Não dá pra gente viver pra sempre no sertão. Eu era o mais desgarrado de meu pai e queria algo diferente para os meus filhos. Lá eles iriam ter as mesmas dificuldades que eu passei.

Há quanto tempo você está fixo no Rio e quando você mudou pra escadaria aqui na Lapa?
Eu estou com 58 anos e moro aqui há 30 anos. Eu criei meus filhos na Rocinha. Mas agora estão todos grandes. Ganhei dois netos, um menino da minha filha e uma menina do meu filho. Quando meus filhos se casaram, cada um veio morar em uma casa aqui na escadaria e, como eu tinha me separado, mudei pra cá. Larguei tudo, muito desgosto, e vim morar com meu filho. Logo depois vim morar sozinho aqui na pensão do lado da casa do Selarón.

O senhor hoje trabalha em que? E quais foram os empregos do senhor desde que veio morar aqui no Rio?
Eu já fiz de tudo. Fui ajudante de pedreiro, servente, porteiro, pintor de parede e hoje trabalho numa firma de vigilância. Já trabalho nisso tem uns sete anos. Eu sou vigilante desse condomínio fechado em Santa Teresa tem uns três anos. Não dá pra gente ficar parado não. Trabalho é bom pro homem. Já passei muita necessidade, então agora encaro qualquer bico.

escadaria.jpgO senhor tem planos de se mudar da escadaria? Algum plano de morar em outro lugar aqui no Rio ou voltar pro Ceará?
Eu moro aqui na escadaria tem uns quatro anos, desde quando separei da minha mulher. Fui casado 32 anos tentei voltar, mas ela que não me quis. Muito desgosto que a gente passa. Agora, aqui, eu estou perto dos meus netos e não sei nada dela. Eu arranjei uma namorada aqui, mas não apresentei aos meus filhos não. Separo filho de namorada. Pretendo ficar aqui. Agora volta pro Ceará só se for para passear em Fortaleza. O Rio é muito bom e aqui na escadaria é muito calmo.

Por Milena Veloso / Colaboração Carolina Ruiz

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